Todos os nomes de ninguém
Identidade, fragmentação e memória audiovisual na realidade algorítmica, em O Número (2007, de Beto Bertagna).
Enquanto fazia leituras sobre cinema, mais especificamente revisitando o livro Documentário em Rondônia: realizadores, filmes e contextos de produção, do comunicador social e jornalista Juliano José de Araújo, recordei de uma porção de experiências vividas durante o curso de crítica cinematográfica do Itaú Cultural, ministrado pelo crítico e professor Juliano Gomes. Dentre as várias felicidades que tive no decorrer dos estudos, talvez o encontro com um olhar crítico que considera e busca conhecer as manifestações artísticas produzidas em Porto Velho, Rondônia e no Norte, tenha sido a mais importante.
Lembro de, durante o curso, pensarmos nos filmes para além das telas, enquanto peças formadoras dessa identidade coletiva nacional, de um Brasil que encontrou e encontra inúmeros percalços na efetivação de políticas públicas mantenedoras desses acervos audiovisuais, e assim, termina por aniquilar décadas de registros e possíveis arquivos de outros Brasis. Entrou aí a ideia da crítica como ferramenta de perpetuação da memória, que junto com o próprio jornalismo, e as pesquisas acadêmicas, entrega não só uma extensão dos filmes na mente e no corpo, mas auxilia a contar um pouco da nossa trajetória, que por sua vez, torna possível o entendimento de alguma identidade em meio aos cambaleios do percurso.
Durante essa releitura do livro de Juliano Araújo, percebi como boa parte do meu contato com a história do cinema documental rondoniense, se deu em virtude das informações contidas nesse trabalho acadêmico, e não diretamente com os vários filmes que o pesquisador reuniu na obra. A percepção audiovisual do meu próprio lar se deu de forma indireta, e isso despertou o interesse de buscar quais desses filmes eu conseguiria encontrar para assistir/reassistir, fosse por mídia física à venda, ou em plataformas digitais pela internet. O resultado: encontrei uma minoria dos filmes disponíveis nos canais do YouTube de Beto Bertagna e Pilar de Zayas Bernanos, diretores citados no trabalho de Juliano Araújo.
Dessa forma, no tempo em que buscava por documentários, me deparei com o curta O Número (2007), de Beto Bertagna, e a pesquisa não-ficcional terminou nos braços da ficção. Ao fim da sessão, tive aquela coceira comum a quem escreve: era o chamado para divagar sobre algo que absolutamente ninguém pediu. Pensei em fazer isso no formato de conversa crítica escrita com outra pessoa, retomando algumas dinâmicas do curso que mencionei anteriormente. A conversa não chegou a acontecer, mas a inquietação permaneceu, e é a partir dela que esse texto se desenvolve.
José, Eduardo, Matilde, Alexandre ou 57?
Adaptação do conto homônimo, do livro Babel, publicado pelo romancista, poemata, professor e pesquisador Alberto Lins Caldas, o filme apresenta a história de um homem (Othon Bastos) que, ao longo dos anos, tem seu nome constantemente alterado por terceiros, fato que muda para sempre o percurso de sua vida. José, Joaquim, Antônio, Eduardo, Alfredo, Matilde, Pedro, Eliezer, César, Mário, Alexandre, Alberto e 57 são os nomes pelos quais o protagonista é chamado na obra. Essas mudanças constantes nos são contadas pelo próprio personagem, que relata sua história ao rememorar o passado.
Bertagna opta por uma narrativa bastante direta, com ideias visuais e sonoras explícitas, o que poderia resultar em uma obviedade excessivamente didática, mas que aqui funciona bem por diferentes motivos. No primeiro minuto do filme, a montagem enfileira cortes sucessivos de diferentes crianças, cada uma enquadrada em plano fechado e posicionada à margem do quadro. A cada novo corte, um nome distinto é pronunciado, como se fosse dirigido ao centro da imagem, criando uma sucessão de chamados. Posteriormente, entenderemos que todos eles se dirigem ao mesmo personagem; no primeiro contato, contudo, a cena não passa de um gesto aparentemente desmotivado. Na sequência, quando o protagonista surge em contra-plongée, olhando ao redor com uma expressão tão confusa e desconfiada quanto os segundos de filme que o antecederam, ele inicia seu depoimento, fazendo com que essas escolhas imagéticas paulatinamente ganhem sentido.
É Othon Bastos quem sustenta esse depoimento do início ao fim, numa atuação de caráter teatral, quase como a performance de um monólogo de palco, que chega a dar a impressão de que o próprio conto está sendo lido em voz alta. Isso não é um problema; pelo contrário, conversa com o caráter experimental do filme e se torna um dos outros motivos pelos quais ele funciona. Uma obra como essa depende bastante de uma performance capaz de prender o espectador na tela, de despertar nele o desejo de saber como vai findar a história daquele homem de tantos nomes, e Othon entrega exatamente isso. Uma vez que o filme encontra na atuação essa base segura para seguir, as escolhas da narrativa ganham mais espaço para tocarem seu caminho planejado, por mais óbvias que sejam. A abertura já deixa evidente a intenção de estruturar a narrativa de modo a organizar suas informações por meio de uma revelação progressiva. Descobrimos esse mundo através de uma dinâmica típica de narrador-personagem, sendo esse o último trunfo do filme, que reside na percepção de como essas lacunas dialogam com a instabilidade e o deslocamento do protagonista diante das incertezas sobre sua própria identidade.
Essa instabilidade que nasce na incerteza permite pensar o nome para além de um mero vocativo, enxergando-o como uma espécie de dispositivo que organiza a inserção do sujeito no mundo. Nesse sentido, o filme sugere que o nome não apenas o identifica, mas também produz efeitos sobre aquele que o carrega, atravessando sua própria trajetória e redefinindo constantemente sua posição. Essa imposição aparece na fragmentação de múltiplos rostos infantis na montagem inicial, antecipando que aquele sujeito sempre será entendido como resultado das vozes externas que o nomeiam. O protagonista, em certo momento do filme, indica que, naquela realidade, todos mudam de nome constantemente e percebem essa questão com naturalidade, sem estranhamento, e os efeitos dessas mudanças ficam evidentes na própria reação altiva e feliz do protagonista quando chamado de Alexandre, ou na figura de sua mãe, que, ao passar a ser chamada pelo mesmo nome do pai, não só muda de nome, mas passa a se comportar de maneira distante, tornando-se o pai dele e mais ausente emocionalmente. Como aponta Juarez Guimarães Dias, em seu trabalho Quem é seu nome? Marcadores de gênero e o direito à identidade própria, o nome civil não constitui uma escolha do sujeito, mas uma imposição inicial que, ao mesmo tempo que o insere na linguagem, o submete a expectativas sociais e normativas que o antecedem. No filme, essa sucessão arbitrária é radicalizada, em uma clara demonstração de como a identidade dos indivíduos pode ser atravessada por forças externas, tornando visível um processo que, na experiência cotidiana, tende a se naturalizar.
A cada novo nome, é tomada do protagonista a possibilidade de continuidade nesse processo de identificação, de modo que ele relata ter vivido em uma constante ansiedade e confusão colérica, que, conforme recorda, retorna à superfície junto com as memórias. Conforme os relatos do próprio personagem, depois de mais uma mudança repentina, que resultou em uma tragédia sem precedentes, ele foi encarcerado. Percebemos então que toda aquela história nos era contada de dentro de uma cela, e que o protagonista, que já teve tantos nomes, agora é chamado e conhecido por todos como 57, um número. Ele afirma que seu maior medo é ser solto e novamente ter seu nome alterado. Diz que não quer mais ser chamado por nenhum outro nome e afirma, de forma categórica, que é feliz.



No entanto, essa afirmação não se sustenta sem ambiguidade. Se, por um lado, o número parece oferecer uma espécie de estabilidade inédita, por outro, essa estabilidade só se torna possível ao custo da própria dissolução do sujeito. Isso acontece na imagem. No filme, os únicos momentos onde a câmera não trabalha com planos fechados, percebendo outros elementos para além do próprio personagem, são nos flashbacks ou possíveis sonhos de liberdade do protagonista. Quando não observado vivendo e perambulando pela cidade bem iluminada pelo por do sol do Madeira, quente, o protagonista é enquadrado em planos nada reveladores, de colorização fria e iluminação irregular, penumbrosa. A liberdade é registrada de forma acolhedora e aquecida, apesar das confusões quanto à identidade, enquanto o cárcere é opressivo e frio, ainda que com a estabilidade do número. Esse espaço é acompanhado, durante todo o depoimento, por uma gota que pinga insistentemente, sem que saibamos, a princípio, de onde ela vem. Ela opera num limbo entre o diegético e o não diegético, pertencendo ao espaço da cela, mas sem que esse espaço ainda tenha sido revelado ao espectador, existindo como som sem origem identificável, numa condição curiosamente parecida com a do próprio protagonista. Quando a cela é finalmente revelada, a gota encontra seu lugar, assim como o depoimento encontra o seu. Mas o que ela faz, para além de situar o espaço, é marcar o tempo com uma indiferença absoluta, um ritmo que não responde ao protagonista, que não se altera com o que ele diz, que não para quando ele sofre. Há nessa gota algo das forças que o filme inteiro descreve, externas, insistentes e completamente alheias à identidade de quem elas acompanham. O fato do filme ter sido rodado em 16mm, vincula a estética a uma razão de aspecto de 4:3, que naturalmente favorece aos enquadramentos mais fechados, fazendo com que a escolha estética da película converse diretamente com essa necessidade de planos mais fechados, que vão lentamente se abrindo conforme a câmera se distancia, revelando a realidade e o espaço de onde o protagonista depõe. Trata-se de uma história de um sujeito que teve de lidar com a imposição de diversos nomes, com uma constante desarticulação da própria identidade, ao ponto de preferir a privação da liberdade e a manutenção do número enquanto seu nome, ainda que isso custe sua humanização, singularidade e liberdade.
O Número é o algoritmo, e a fragmentação de identidades virou mera paisagem
Ninguém tinha nome fixo, contestar causava espanto. Ninguém também nunca explicou por que aquilo acontecia. De um dia para o outro, o nome antigo não era encontrado em canto nenhum. Todos misteriosamente sabiam o nome novo, até as crianças não titubeavam.
Há um detalhe no filme que merece atenção: o protagonista menciona que, naquela realidade, todos mudam de nome constantemente, e que essa dinâmica é percebida com naturalidade, sem estranhamento, de forma quase automática. É precisamente esse comportamento, o de naturalizar aquilo que deveria causar espanto, que abre uma passagem entre a fantasia do filme e a crueza da realidade.
Cada usuário ativo na internet hoje habita, simultaneamente, uma série de perfis distintos, cada qual com seu nome de usuário, sua estética, seu tom, seu público e seu comportamento esperado. Hoje todos somos criadores de conteúdo de nós mesmos, e em certa medida, nos comunicamos dentro dessa lógica em muitas de nossas redes sociais. Estas, que um dia talvez tenham funcionado como uma espécie de extensão de nós mesmos no virtual, hoje operam sob uma lógica distorcida e fragmentada de quem somos. O que se compartilha no LinkedIn dificilmente apareceria no TikTok; o que se publica no Instagram raramente migraria sem edição para o X. Não se trata apenas de adequação de linguagem, trata-se de personas distintas, construídas e mantidas em paralelo, que coexistem sob uma mesma pessoa sem necessariamente se reconhecerem. Nesse sentido, a multiplicidade que no filme constitui uma tragédia explícita, no mundo real se tornou mera paisagem.
É tentador, diante disso, argumentar que a experiência do internauta e a do protagonista são fundamentalmente distintas, já que a primeira envolveria escolha, e a segunda, imposição pura e simples. Mas essa distinção é menos sólida do que aparenta. As identidades adotadas nas redes são negociadas dentro de um campo que o próprio usuário não controla. Algoritmos determinam o que circula e o que some, estéticas de comunidade estabelecem o que é aceitável representar em cada plataforma, e pressões sociais, difusas, mas concretas, orientam o que pode ser dito e o que deve ser silenciado. A escolha existe, mas existe dentro de uma linguagem que não se aprende explicitamente e que passa a falar quase sem perceber. A própria presença nas redes, frequentemente tomada como opcional, é cada vez menos facultativa: recusar o WhatsApp, o Instagram ou o LinkedIn não é simplesmente uma preferência de estilo de vida, é uma decisão que cobra custos reais em relações, oportunidades e formas de pertencimento. Basta perceber a crescente na quantidade de perfis de profissionais autônomos, que se viram forçados a criar contas no Instagram e no TikTok, para conseguirem disputar por fatias nos seus respectivos mercados.
O que se configura então, não é exatamente liberdade, mas uma liberdade negociada dentro de estruturas que o sujeito dificilmente consegue nomear com precisão. A fronteira entre escolher uma identidade e ser escolhido por ela é, nesses casos, porosa. O efeito acumulado dessa porosidade sobre a percepção que o sujeito tem de si mesmo, sobre sua capacidade de se reconhecer em meio a tantas versões de si espalhadas por tantas plataformas, é uma questão que a contemporaneidade ainda está aprendendo a formular, quanto mais a responder. O protagonista de O Número ao menos sabia, com uma clareza dolorosa, que seus nomes lhe eram tirados. Nós, em grande medida, nem isso.
Saber quem se é, o que buscar, e do que lembrar
Agora eu tenho apenas um medo: o de viver bastante e ser solto. Eu nunca mais vou querer deixar de ser o 57. Eu sou feliz, eu sou o homem mais feliz do mundo.
A crítica, o jornalismo e a academia foram citadas no prólogo desse texto como instrumentos de preservação da memória, capazes de entregar não só uma experiência alongada dos filmes no tempo, mas de auxiliar na construção de uma trajetória que torna possível o entendimento de alguma identidade. Vale agora perguntar o que essa função significa num momento em que a própria identidade se encontra fragmentada, negociada e distribuída entre plataformas que operam sob lógicas que mal conseguimos nomear.
Se já é difícil, para o internauta contemporâneo, reconhecer-se em meio a tantas versões de si mesmo espalhadas pelas redes, o que dizer de uma identidade audiovisual rondoniense que sequer encontrou os meios estáveis de circular? Como reagir ao pensar que essa realidade é similar em outros estados brasileiros, e que a nível nacional obviamente o cenário não é menos preocupante? O cinema rondoniense existe, tem diretores e filmes não-ficcionais e ficcionais, de variados gêneros, do experimental ao mais comercial, é premiado nacionalmente e internacionalmente, tem histórias originais e adaptadas que merecem ser contadas e revistas. Mas existe a duras penas, através do sangue e suor dos produtores, artistas e agitadores culturais, enfrenta dificuldades mil de capacitação, financiamento, distribuição e exibição. Tem se tornado cada vez mais acessível, mas infelizmente bastante ignorado, inclusive por aqueles que nasceram no mesmo chão que o produziu. A maior cota dessa responsabilidade não pode ser levianamente atribuída à própria comunidade, é bem sabido por todos que esse apagamento é um projeto maior, que serve a interesses sistêmicos. Felizmente, a experiência fílmica não se restringe às telas, e fora delas, por exemplo, eu cheguei a O Número, enquanto buscava outra coisa.
Contudo, há qualquer coisa de sintomático nisso. Num contexto em que a fragmentação de identidades virou paisagem, e em que a presença ou ausência nas redes determina, em grande medida, o que existe e o que desaparece, a produção audiovisual de lugares historicamente desprezados pelos centros culturais e econômicos do país corre um risco duplo: o de não ser vista, e o de nem ser procurada. Para além da crítica, do jornalismo, do meio acadêmico, talvez seja necessário o desenvolvimento de uma observação e apreciação crítica das artes e da realidade como um todo, por parte de cada um. Talvez essa seja a última barreira frente a esse apagamento, a única forma de se criar e manter registros que resistam à lógica algorítmica, que fujam da ideia tosca de uma plataforma estrangeira decidindo que conteúdos merecem ou não circular.
Não sei se esse texto auxilia nessa função, mas sei que assistir O Número (2007) e escrever sobre algo que ele me fez pensar é, à sua maneira, uma forma de recusar que ele desapareça. E que talvez a pergunta mais honesta que se possa fazer, ao fim de tudo, não seja apenas quem somos, mas o que essa coisa que somos ou deixamos de ser, está disposta a lembrar.



