Passei algum tempo sem escrever sequer uma linha. Continuei assistindo a filmes, pensando sobre eles e conversando com pessoas próximas, debatendo coletivamente, mas não sentia necessidade de transformar tudo isso em texto. Surgiram algumas responsabilidades que demandaram mais atenção e, nesse meio tempo, vivi minha paixão de uma forma que não fazia há tempos e também como nunca havia vivido antes. Talvez eu explique isso melhor no final.
Eu nem sempre escrevi. Também nem sempre pensei profundamente sobre algum filme. Eu nem sempre fui cinéfilo ou crítico.
Não lembro exatamente qual foi a primeira vez que pisei em uma sala de cinema, e muito menos lembro qual foi o primeiro filme que assisti. Desconfio que tenha acontecido nos cinemas de rua que um dia existiram em Porto Velho: o Cine Veneza, o Cine Rio ou o Cine Brasil. Gosto de pensar que minha primeira sessão aconteceu nesse último, que funcionava no coração da capital de Rondônia, na Avenida Sete de Setembro. Foi nosso primeiro cinema sonoro e também foi o primeiro cinema de rua que vi fechar as portas, em 2007.
De lá para cá, muita coisa mudou. Com a menção honrosa ao Cine Tapiri e ao Espaço Multilinguagens Agrael de Jesus, que buscam caminhos alternativos para a sobrevivência da apreciação da arte audiovisual, pode-se dizer que não existem mais cinemas de rua em Porto Velho, ao menos não naqueles moldes.
Eu também mudei. Essa preocupação com a existência desses espaços e com a apreciação de algo que é nosso sequer passava pela minha cabeça há alguns anos. Para falar a verdade, essa fixação por essas coisas começou muito longe de uma sala de cinema, e mais longe ainda de qualquer preocupação com filmes rondonienses, nortistas ou brasileiros.
Me tornei cinéfilo em casa, e por acidente, de frente para uma televisão e um aparelho de DVD, assistindo ao disco 2 de extras da versão widescreen de Homem-Aranha 2 (2004, de Sam Raimi). Inseri o segundo disco no leitor esperando encontrar uma outra versão do mesmo filme, ou talvez até um terceiro filme, e me deparei com uma série de curiosidades sobre design visual, figurino, uso de dublês, trabalhos de câmera, efeitos visuais práticos e digitais, som e música. Não entendi absolutamente nada e, ao mesmo tempo, tudo tinha mudado a partir dali.
“Filho, não fica impressionado não, que isso é tudo mentira”, brincava meu pai ao fim das nossas assistidas.
E sim, tudo aquilo era mentira. Eu sabia disso. Mas era a mentira mais fantástica que eu tinha visto na minha vida, e eu mal podia esperar para ser enganado novamente, ficando depois a conjecturar sobre como tinha sido ludibriado mais uma vez.
Talvez tenha sido aí que começou a coisa. O garoto que, na infância, em uma oração, pediu que Deus protegesse e cuidasse do Super-Homem atravessou a adolescência e permaneceu aficionado por “filmes de boneco”. Foi com o aumento do acesso à internet e o maior contato com as redes sociais que essa relação começou a mudar de forma. Canais no YouTube de nerds e geeks criando teorias sobre o enredo de alguns filmes me levaram a canais de divulgação e resenha. Em algum momento, isso me levou até o Cinema em Cena, do Pablo Villaça, que me carregou até os trabalhos escritos da Isabela Boscov na Veja, e terminou comigo escrevendo algumas poucas linhas sobre qualquer coisa que tivesse assistido, em cadernos velhos e de paradeiro hoje desconhecido.
Não saber nada sobre cinema começou a se tornar um incômodo cada vez maior. No fim do ensino médio, comecei a ler sobre cinema e nunca mais parei. Tratei esses estudos como meu orgulho e vergonha simultâneos, não compartilhando essas coisas com nenhuma alma viva. Nesse contato com a crítica de cinema, que lentamente eu experimentei, comecei a divagar sobre aquilo de que tanto gostava, fazer trocas imaginárias sobre aquelas imagens que ficavam comigo depois de cada sessão. Existiam virtualmente, em fóruns, Filmow, Twitter e Letterboxd, uma gama de pessoas que tinham coragem de compartilhar suas próprias opiniões, algumas com todo fundamento e bagagem, outras sem muito, como eu, e, independentemente de aquilo ser um ofício para elas ou não, havia troca, e me imaginar trocando com elas era o máximo que eu conseguia fazer sobre isso.
Em 2019, fui convencido por um amigo, Alexandre, a criar algum lugar onde pudesse compartilhar essas coisas. Ele achava que eram legais o suficiente para serem espalhadas. Isso se aliou à inquietação de querer botar para fora aquelas coisas que pediam para sair, para serem trocadas.
Naquele ano, criei um blog e fiz algumas publicações. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, criei um perfil no Instagram e um canal no YouTube, onde divulguei uma série de vídeos com críticas cinematográficas e listas de filmes. Em 2021, dei um hiato por causa de muitos problemas pessoais. A partir daquele momento, esse projeto enfrentou um vai e vem grande, uma série de hiatos e retomadas que, de alguma forma, acompanhou o caos daquele período.
Em 2023, fiz um curso de crítica de cinema pelo Itaú Cultural. Foi ali que algumas perguntas que eu vinha carregando começaram a ganhar outra dimensão. Eu passei a pensar com mais atenção sobre o que significa ser crítico de cinema, qual é o lugar dessa atividade e o que pode fazer uma pessoa que escreve sobre filmes diante daquilo que está ao seu redor. Entre essas questões estava a memória.
O cinema registra muito mais do que aquilo que aparece deliberadamente diante da câmera. Registra lugares, modos de falar, corpos, costumes, ruas, relações, pequenas formas de existência que podem desaparecer sem que ninguém perceba que estavam indo embora. A crítica também pode participar disso quando decide olhar para aquilo que está próximo, quando escreve sobre a produção de uma cidade, de um estado ou de uma região que muitas vezes permanece fora dos lugares onde se costuma procurar o cinema brasileiro.
Foi nesse momento que comecei a me perguntar que crítico eu queria ser. Se assistir mais do mesmo havia deixado de ser uma opção há algum tempo, por que escrever sobre tudo aquilo que já se escrevia ainda seria uma opção? Por que eu deveria me furtar de escrever sobre aquilo que queria também? Talvez escrever sobre cinema tivesse menos a ver com encontrar um lugar dentro de uma conversa já estabelecida e mais com descobrir quais conversas estavam acontecendo ao meu redor e que eu ainda não tinha aprendido a ouvir.
A virada de 2024 para 2025 trouxe consigo um equilíbrio que faltava para que eu conseguisse retornar a esse projeto com alguma regularidade. Eu precisava que o Cinemacro encontrasse um espaço possível dentro da minha vida, que respeitasse minhas outras responsabilidades e não concorresse com tudo aquilo que também precisava da minha atenção. Aos trancos e barrancos, entendo que consegui e, de quebra, pude escrever alguns textos sobre o cinema da minha terra e fui estreitando os laços da minha escrita e da minha memória com a memória do meu lar. Ainda há muito para ser pensado, debatido e escrito sobre nosso cinema, mas é gostoso estar a par das coisas, acompanhar atento a trajetória da nossa cultura audiovisual, e torcer para que esse vínculo e interesse se aprofunde e fortaleça.
Só que, nesse intervalo, outra coisa aconteceu.
Estamos em 2026. Hoje faço parte e ajudo a administrar um cineclube, o Cineclube PVH. Nos últimos meses, tenho me envolvido mais com ele do que com o Cinemacro. Às vezes me pego pensando sobre isso e sinto um certo medo. Existe uma possibilidade de que essa fruição coletiva consuma o tempo que eu antes reservava para uma relação mais particular com a minha paixão. Existe o medo de que esse projeto acabe engolindo o outro, que eu deixe de escrever, que a escrita deixe de ser exercitada e que, em algum momento, não exista mais resquício daquela pessoa que eu fui.
Talvez seja uma preocupação um pouco egoísta.
Durante muito tempo, o cinema foi uma coisa que acontecia entre mim e uma tela. Eu podia assistir sozinho, voltar uma cena, pausar um filme, escrever alguma coisa em um caderno e guardar aquilo comigo. Depois vieram as publicações, os vídeos, as conversas. Agora existem programações e encontros que precisam ser pensados, filmes e temáticas que precisam ser escolhidos coletivamente, locais de encontro para serem reservados e divulgações de tudo isso nas mídias sociais.
A experiência deixou de caber apenas dentro da lógica mais individual da sala escura e, de alguma maneira, eu tive medo de que isso significasse perder alguma coisa.
Mas talvez eu tenha confundido a forma com a própria paixão. Eu ainda gosto de sentar diante de uma tela e ser surpreendido por alguma coisa que não esperava. Ainda gosto de descobrir como uma imagem foi construída, de perceber a blocagem de uma cena, uma escolha de enquadramento, um elemento na penumbra do segundo plano, os acordes de música que também descrevem um personagem. Ainda gosto de terminar um filme e ficar pensando sobre ele durante horas, dias, semanas e anos. A diferença é que também gosto de descobrir o que outra pessoa viu naquela mesma imagem, ali, na minha frente. Gosto de ouvir alguém falar de um detalhe de uma cena que eu não tinha percebido, ou sobre como aquela escolha narrativa que eu odiei significou tudo para alguém. Gosto de perceber que um filme pode continuar existindo depois da sessão, circulando entre as pessoas que o assistiram. Tudo isso era possível nas telas e nas leituras, mas viver de frente, ao redor de uma mesa, pareceu e segue parecendo diferente. Talvez seja isso que tenha mudado.
Minha paixão pelo cinema ganhou outras formas de existir. Isso não significa que a relação individual tenha desaparecido. Ela continua nas linhas que escrevo, nas coisas que anoto, nos filmes que assisto sozinho e nas perguntas que ficam depois deles. Mas existe também uma dimensão coletiva que eu não conhecia quando comecei.
Quando penso hoje naquela criança diante do segundo disco de Homem-Aranha 2 (2004), não consigo deixar de imaginar que ela teria ficado fascinada com tudo isso. Talvez não pelo fato de um dia participar ou administrar um cineclube ou escrever sobre cinema. Talvez simplesmente pela descoberta de que aquela mentira que aparecia diante dela na televisão podia juntar tantas pessoas em torno de alguma coisa.
Eu vou continuar envelhecendo e mudando. As responsabilidades continuarão chegando de maneiras diferentes, e a tendência é que o tempo continue diminuindo. Talvez o Cinemacro atravesse outros hiatos. Talvez eu passe períodos sem escrever novamente. Talvez eu descubra outras maneiras de viver essa paixão que hoje sequer consigo imaginar.
E acho que, finalmente, estou aprendendo a não ter mais tanto medo disso.
Durante muito tempo, pensei na memória como alguma coisa que precisava ser preservada para que determinadas coisas não desaparecessem. Hoje penso que também existe memória naquilo que continua mudando. Talvez eu não precise permanecer exatamente como fui para reconhecer aquela pessoa quando olhar para trás.
Se algum dia eu deixar de escrever, essas linhas ainda estarão aqui. Se forem as últimas que eu digitar, ainda encontrarei nelas alguma lembrança de quem fui. Vou lembrar do garoto que queria entender como aquelas imagens eram feitas, do adolescente que queria saber mais sobre cinema, do sujeito que escrevia escondido em cadernos que provavelmente nunca mais encontrará, do crítico que tentou transformar algumas dessas inquietações em texto e das pessoas com quem, anos depois, passou a trocar ideias sobre filmes, ao redor de uma mesa.
Talvez seja essa a única coisa que realmente tenha permanecido. Eu nunca abandonei o que amo. Também não precisei permanecer a mesma pessoa para continuar amando.
No fim das contas, tudo começou com a minha fascinação por ser enganado pelo audiovisual. Foi justamente seguindo aquelas mentiras que encontrei alguma verdade sobre mim mesmo, e talvez esse seja um dos motivos pelos quais continuo voltando para elas.





