Desejo deles terror delas, em Obsessão (2026)
Cuidado com o que desejam.
Um jovem rapaz conhecido como Bear, é apaixonado por uma de suas amigas, Nikki. Ambos fazem parte de um grupo de amigos que se conheceram no trabalho, junto de Ian e Sarah. Certa noite, depois de uma birita entre amigos, Bear se oferece para dar carona a Nikki na intenção de se declarar. Não o faz. Acovardado, nega gostar dela quando questionado diretamente, e a deixa partir. Na sequência, revelando outra faceta de sua covardia, recorre a um subterfúgio aparentemente besta e esotérico que adquirira momentos antes: uma varinha de salgueiro, item de colecionador que promete realizar apenas um desejo de quem o fizer. Inconformado com um não que sequer teve culhões de receber, seu pedido é óbvio, quer que Nikki o ame incondicionalmente, acima de tudo e todos.
É depois do desejo que a câmera passa a tratar Nikki de forma distinta. Numa sacada esperta que aproveita a profundidade de campo, percebemos que Nikki passou o tempo todo parada em frente à porta da sua casa, estática, sem nunca ter adentrado. Ela se aproxima novamente do carro, e agora passa a tentar convencer Bear a descer e entrar em sua casa, ou ir até a dele, inventando um câncer do pai ausente para dobrar o senso de julgamento do amigo. O protagonista percebe a estranheza, encara o pacote aberto da varinha buscando uma justificativa, e ainda assim cede. É também nesse momento que Nikki passa de uma iluminação, blocagem e enquadramentos como de quaisquer outros personagens, para um trabalho estético conjunto que intenta subtrair suas feições pela sombra e enquadramentos, dispondo da movimentação da personagem e de elementos da encenação para avisar o espectador de que aquela não é mais ela.
Já na residência de Bear, Nikki passeia pelos cômodos, diz sentir o seu cheiro, o elogia. Até pouco tempo atrás ela sequer tolerava brincadeiras que a ligassem romanticamente ao amigo, e agora está no quarto dele trajando apenas roupas íntimas, dizendo que quer deitar. Bear, ainda em conflito com a bizarria do que presencia, mesmo cogitando que o artefato esotérico pudesse ter influência em tudo aquilo, decide ceder. Eles trocam beijos e carícias, e quando a tensão sexual beirava a explosão, Nikki berra assustada e recua. Por um breve instante ela parece confusa, como se não soubesse como chegou ali. Bear observa isso, e permanece. Naquela noite duas pessoas dormiram juntas: Bear, e o que quer que fosse que estava ali e atendia por Nikki.
Esse é o ponto de partida de Obsessão (2026, do estreante em Hollywood, Curry Barker), e também onde o filme começa a se distanciar de seus contemporâneos de gênero. O resultado é um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, que ainda que esteticamente se assemelhe a filmes como Fale Comigo (2023, igualmente dirigido por ex-youtubers, os Irmãos Phillipou) e Sorria 2 (2024, de Parker Finn), se afasta um pouco da ideia do trauma enquanto manivela narrativa, apostando no trunfo do choque gráfico como véu que disfarça um horror reconhecível, o da manipulação e covardia masculinas que culminam em muita violência acumulada, e no derradeiro abandono, cujas consequências são sempre desproporcionalmente carregadas pelas mulheres.
A manipulação consciente de Bear
Na manhã seguinte, Bear chega ao trabalho junto de Nikki. Ian, animado, o arrasta para uma conversa reservada no depósito da loja. Gravada em campo e contracampo, mais uma vez explorando o desfoque do segundo plano para causar desconforto, observamos os dois amigos dialogando sobre os acontecimentos do dia anterior, enquanto ao fundo, Nikki observa ambos obsessivamente. Bear conta que dormiu na mesma cama com sua amiga, que se beijaram, que quase transaram, mas que Nikki teve um ataque de pânico repentino e se comportou de forma muito estranha, até chamá-lo para dormir junto. Ian pergunta se Bear chegou a se declarar, como havia dito que faria outrora. A resposta foi negativa, com a justificativa de que a ida de Nikki foi motivada pelo abalo emocional causado pela doença que acometia o pai ausente da personagem. Ian até busca questionar a veracidade disso, levantando o fato bem sabido entre o grupo de amigos, de que Nikki pouco se lixava para seu pai ausente. Bear não só busca formas de relativizar a incongruência, como também omite um fator que o havia inquietado na noite anterior, a varinha de salgueiro. O filme trabalha com uma certa ambiguidade preliminar na figura de Bear e sua omissão, e o que possivelmente pode ser interpretado como embaraço ou autocensura, com o avançar dos minutos e o evidente acúmulo de certeza sobre o que fez e os motivos de todo o caos, qualquer leitura generosa vai perdendo sustentação dentro da própria narrativa. Bear é um manipulador consciente, e toda desgraça que cerca a ele e seus amigos tem origem na sua covardia e trapaça.
O véu do terror sobrenatural e o que de macabro ele esconde
Seguindo a onda de seus contemporâneos, a obra de Barker aposta em uma atmosfera de tensão que se intensifica paulatinamente, com uma mise-en-scène acurada, e encontra momentos de explosão gráfica e grande violência.
Assim como nos trabalhos de John Carpenter, mais especificamente de Halloween (1978), o filme se aproveita amplamente das oscilações de foco entre primeiro e segundo plano, explorando bem a profundidade de campo para causar aflição, ao mesmo tempo em que desenvolve e confirma a obsessão de Nikki por Bear. Isso é trabalhado nas cenas da carona por exemplo, quando percebemos Nikki ao fundo, sem entrar na sua casa, e sem retornar para o carro, estática, ou quando ela observa obsessivamente Ian e Bear dialogando na loja, enquanto existem outros personagens tentando chamar sua atenção. Existe um terror da sugestão, que dispensa uma utilização exaustiva desses recursos, considerando que a simples possibilidade da Nikki estar observando, ou de que ela apareça de supetão, já é suficiente para tirar o espectador da zona de conforto.
Meses depois dos acontecimentos daquela primeira noite, os dois amigos se tornam namorados. Em uma sequência de cenas montada de forma afetiva e romântica, vemos que aparentemente as coisas vão bem, e ambos desenvolveram uma intimidade notável. Mais uma vez as aparências enganam, e certa noite, ao acordar no meio da noite, Bear encontra Nikki parada no canto do quarto, imóvel, observando ele dormir. Assustado, ele tenta convencê-la a deitar, ela chorosa pede que ele durma, diz que não consegue dormir por conta dos pesadelos, e que vai permanecer ali. Sem entender, e bastante amedrontado, Bear se deita novamente e tenta dormir, quando ela o acorda com um grito lamurioso, dizendo pensar que ele não a ama da mesma forma e o questionando sobre isso. Ao olhar para o canto do quarto, ela não está mais lá. Surge próxima à cama, se deslocando lateralmente com uma velocidade anormal, com um vaso de flores sobrepondo sua face. Depois de ficar calada nessa posição por alguns segundos, repousa o vaso num móvel, diz que é homenagem a um gato de estimação falecido de Bear, e deita na cama como se nada tivesse acontecido. Quando ele ensaia levantar, ela vocifera para que ele não levante. Ele obedece. Aliada do excelente trabalho estético que busca uma desumanização expressiva de Nikki, a fisicalidade de Inde Navarrete constrói as bases para uma imprevisibilidade que é a força motriz do terror no longa.
Acontece que esse medo que vem da imprevisibilidade de Nikki esconde, como se fosse um véu, um outro tipo de terror que coexiste paralelamente ao medo que tanto Bear quanto os próprios espectadores sentem da Nikki, que é o medo pelo bem-estar dela, o horror das violências às quais ela foi exposta sem o seu consentimento, e que ficam mais cristalinas em dois momentos específicos da obra.
Depois de descobrir que o sanduíche preparado por Nikki para ele comer no intervalo do trabalho foi feito com a carne cozida do seu falecido gato, o protagonista retorna para sua casa em completo desespero. Nessa oportunidade, sem saber a quem recorrer, ele encontra a embalagem da varinha de salgueiro, e nela, observa um número para o qual ligar em caso de reclamações. É o que Bear faz. Na ocasião o atendente informa que Nikki não está mais lá, que não há nada a ser resolvido, e que o feitiço feito pelo protagonista só será quebrado com a morte de Bear, alvo da obsessão. Ele pergunta se Nikki vai ficar daquele jeito para sempre, e o atendente o responde com outra pergunta, em tom claramente ameaçador, se ele gostaria de falar com a verdadeira Nikki. Os segundos seguintes são terríveis, onde é possível ouvir os gritos de dor e desespero de alguém que realmente parece estar agonizando.
Mais à frente, depois de uma noite desastrosa no aniversário de Ian, que terminou com uma automutilação por parte de Nikki, em virtude de mais um rompante de aparente retorno da verdadeira Nikki à superfície, bradando que aquela não era ela, o casal se deita para mais uma noite horrorosa de sono. Naquela oportunidade, após receber uma mensagem de Sarah, pedindo para encontrá-la em virtude de assuntos sérios que precisava tratar com o protagonista, Bear tenta sair de fininho sem ser percebido, e de repente ouve Nikki chamar seu nome. Era a verdadeira Nikki, sussurrando, aproveitando que aparentemente a obsessiva que tomou seu corpo estava dormindo. Ela pede reiteradas vezes para que Bear a retire da sua miséria e a mate, antes que a outra acorde. Mesmo sabendo de tudo, mesmo após aquela ligação, mesmo após a súplica de morte de Nikki, a primeira coisa que passa pela cabeça de Bear, e que ele pergunta, é o porquê de ela não querer estar com ele. Ela diz que nunca esteve ali, que nunca esteve com ele, e torna a pedir que ele a mate. Ele se retira, nada faz, e vai ao encontro de Sarah.
Eis o fim de qualquer ambiguidade residual na narrativa. O espectador que ainda nutrisse alguma dúvida sobre o que vinha acontecendo com Nikki desde então, ou sobre a responsabilidade de Bear, não tem mais para onde correr. Cada momento vivido entre o casal, da mais simples palavra ou carícia trocada a qualquer cena de intimidade, cada beijo dado, cada momento de sexo, cada noite dormida juntos, nada consensual. Nikki foi violentada incontáveis vezes das mais variadas formas. Foi manipulada, importunada sexualmente e estuprada durante meses a fio.
A assimetria das consequências
O terceiro ato de Obsessão (2026) não poupa ninguém. Sarah tem sua cabeça esmagada repetidas vezes contra um tijolo, por Nikki, num rompante de ciúme, Ian é baleado na cabeça ao tentar ajudar o amigo, e Bear, encurralado e desesperado, encontra ainda tempo para uma última demonstração de sua falta de caráter, ao tentar usar a obsessão de Nikki por ele para que ela resolva o caos que ele mesmo criou. Ela tenta matá-lo. Ele se tranca no banheiro com a pistola que acabara de matar Ian, ingere uma quantidade perigosa de remédios na intenção de se suicidar, e num último gesto de covardia, muda de ideia. Sai do banheiro chamando por Nikki. Descobrimos que ela havia quebrado a varinha para que Bear também fosse tomado pela obsessão. Nos últimos instantes, ambos obcecados um pelo outro, se beijam e sentam no sofá. Bear entra em choque anafilático e morre nos braços de quem tanto desejou. Sua agonia termina ali. A de Nikki não.
Quando Bear morre, o feitiço se quebra, e ela retorna ao próprio corpo com todas as faculdades. O que encontra é uma ruína, a mortalha de uma vida que um dia foi sua. Os corpos de dois amigos, meses de um relacionamento que não queria e violências mil que sofreu sem escolha. Ainda de quebra, a perspectiva de ser responsabilizada por crimes que sequer cometeu. Bear manipulou, importunou sexualmente, estuprou, arruinou completamente a vida de Nikki, e saiu pela tangente da morte. Alguém precisava pagar essa conta, e na maioria esmagadora das vezes a assimetria das consequências é mais pesada para as mulheres.
Nos créditos, enquanto os nomes sobem na tela, ainda é possível ouvir os gritos de dor e desespero dela. O filme termina com seus bramidos, em um dos poucos momentos em que ela tem espaço para existir plenamente.






