Observa-se a tela de um computador. Nela, um chat institucional de funerária exibe a ordem de um supervisor que, incomodado com o que entende serem floreios artísticos em um texto memorial, exige de Pilar/Tistica a reelaboração daquele trabalho. A repressão exercida pelo que existe de conservador no mundo exterior contra os vestígios da inquietação e da criatividade dos artistas nas atividades rotineiras é apenas uma das ideias que o curta-metragem A Ascensão da Cigarra (2025), de Ana Clara Ribeiro Lages, experimenta em seus 19 minutos metafóricos sobre o que significa existir, criar e viver enquanto cigarra ou, por que não dizer, artista.
O filme situa sua narrativa na comparação entre o ciclo de vida das cigarras e a jornada de descoberta das artistas, trunfo da pesquisa de Ana Clara Ribeiro e Joesér Alvarez. Existe um esforço poético-descritivo ao longo do filme, que delineia esse processo de transformação da cigarra e da artista, marcando e comparando o longo intervalo em que ambas existem debaixo da terra, no escuro, alimentando-se da seiva das raízes das plantas ou das sobras da realidade do mundo exterior, até que, em algum momento, rompem a casca durante a ecdise e, no auge de sua vulnerabilidade, expressam a própria identidade no canto, que se revela um ato tanto biológico quanto artístico. Ana Clara, que também assina o roteiro, conduz esse esforço inserindo no texto algumas narrações extradiegéticas que, de início, dão o pontapé para que as imagens montadas por Isadora Boschiroli terminem de traçar a lógica entre inseto e mulher artista.
No começo de tudo, desejo era desiderium, de sideral: sentir a falta do céu.
Essa lógica assume contornos existenciais na narrativa, que compreende o ímpeto das artistas de se comunicar com o mundo como algo tão imprescindível e remoto quanto a necessidade reprodutiva das cigarras e as origens e a etimologia do desejo. Isso se evidencia na riqueza estética das texturas que passeiam pela tela, quando a fotografia de Rafaela Correia coexiste com as animações de Vitória Morão, Amanda Trindade e da própria diretora, reafirmadas pelo trabalho sonoro de Verônica Brasil. Enquanto o texto traça a linha do tempo das cigarras simultaneamente às digressões de Pilar/Tistica, a imagem intercala as pesquisas da protagonista no presente com registros de sua infância, adolescência e vida adulta, além de imagens de cigarras e da selva urbana de Porto Velho/RO, ressaltando os paralelos entre essas trajetórias, enquanto o som revisa todo esse fluxo de elementos, não deixando nenhuma ação, espaço, fotografias ou documentos em movimento, sem sua respectiva idenficação sonora.
As colagens se acumulam e se movimentam na tela, ganhando sentido nessa aproximação. A saída das cigarras de suas cascas aparece ao lado de diferentes Pilares/Tisticas no tempo. Fotografias, objetos e documentos recortados se intercalam com ilustrações, imagens do céu estrelado, detalhes do quarto da protagonista, escuro como o abrigo da primeira vida das cigarras, e recortes das inspirações que servem de seiva para o desenvolvimento da artista. Todos esses elementos aparecem com texturas particulares, entre ilustrações analógicas e digitais e diferentes tipos de papéis impressos, do mais grosso do estojo que abriga fotografias ao papel fotográfico rasgado. A catarse da manifestação artística é metalinguística na própria forma porque, em diálogo com essa jornada artístico-biológica, o filme emprega os recortes e a colagem para reunir o que existe como fragmento e dar luz a algo novo.
É justamente nesse ponto que a estética adotada, que é bela por si só, conversa com o que existe de bonito na ideia de converter as dores e inspirações recolhidas da realidade em algo que precisa ser espalhado, como os ovos de uma cigarra, mas que vai além da intenção da reprodução/troca e alcança um patamar de ação capaz de ressignificar a experiência e fortalecer a persistência na vida.
Pilar/Tistica é uma trabalhadora, escreve textos memoriais para uma funerária e, durante o período pandêmico, em meio à desolação da morte coletiva causada pela covid-19 e aprofundada pela política genocida do Estado brasileiro, reluta em tratar a própria escrita de maneira asséptica. Fazer isso seria naturalizar a morte como algo mecânico e distante. Assim, ela deixa vestígios da artista que está descobrindo ser (e que seguirá se tornando) nos memoriais que escreve, atitude que encontra repressão dentro da própria narrativa, seja na figura do supervisor que devolve o trabalho, seja na moral tradicional da fábula da Cigarra e da Formiga, introduzida por meio de um voice-over no início do filme. A dicotomia entre trabalho e vadiagem e a estigmatização dos artistas como vagabundos e desocupados ficam inscritas no filme e se apresentam na vida da artista retratada na cena que abre este texto. Retorna-se, então, à metáfora da ecdise: para se metamorfosear, a cigarra precisa romper a casca e buscar uma forma de fazer o próprio canto ecoar no mundo, um jeito de alcançar o desidério do artista ou de lidar com o vazio e a ausência do céu estrelado, que sempre vai existir (tanto o vazio quanto o céu), e justamente por isso, torna eterna essa busca.
Essa ecdise também se apresenta no corpo de Pilar/Tistica, cuja coluna torta demanda um esforço constante para se “endireitar”. Amanara Brandão começa o filme em um registro abatido, de quem reage ao caos, com as costas envergadas sob o peso desse momento subterrâneo da vida. Ao longo do curta a intérprete se utiliza dessa fisicalidade para acompanhar a transformação da personagem. Em uma dança em meio ao verde da floresta e das distorções da lente, Amanara contorce o próprio corpo em movimentos que parecem buscar uma abertura para abandonar a casca que ainda a aprisiona. Ao fim, ela finalmente consegue sair, com os olhos paramentados como os de uma cigarra improvisada, Pilar/Tistica berra o seu canto, e na ascensão da cigarra nasce uma artista.
O curta experimental rondoniense expõe na sua forma, o que acontece em uma dimensão coletiva, quando essas inquietações artísticas se encontram. A Ascensão da Cigarra (2025, de Ana Clara Ribeiro Lages) se sai muito bem, nessa ecdise metalinguística coletiva, de Ana, Amanara, Rafaela, Vitória, Isadora, Amanda e Verônica, mulheres que deram forma às imagens, ilustrações, animações, texturas e sons desse filme, e que terminaram junto de Pilar/Tistica, cantando o romper da própria casca.







